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Pela primeira vez, transexuais participaram e colaboraram com operações federais para desarticular quadrilhas que comandavam o tráfico estadual e internacional de travestis a partir de São Paulo.

Ainda marginalizadas pela sociedade, as trans tiveram papel importante para ajudar a Polícia Federal (PF), o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Trabalho (MPT) a libertar mais de 70 travestis vítimas em duas ações (veja vídeo acima).

Para ganhar a confiança das vítimas e conseguir resgatá-las, as trans participavam das operações como interlocutoras das vítimas. Elas conversavam com as travestis em pajubá, dialeto usado por LGBTs.

As vítimas eram exploradas sexualmente e escravizadas, sendo obrigadas a se prostituir para pagar dívidas contraídas com cafetões e cafetinas. Se não pagassem, eram agredidas.

Essa é uma das reportagens que o G1publica nesta semana em razão da 23ª Parada do Orgulho LGBT, que ocorre no próximo domingo (23) na capital paulista. Veja também o relato da travesti Luísa Marilac sobre o período em que foi vítima de exploração sexual na Europa. Amiga relembra morte violenta de amiga.

Trans agredidas

De acordo com as autoridades, as vítimas eram mantidas em cativeiros em Franca e em Ribeirão Preto e só podiam deixar os locais se pagassem os débitos financeiros adquiridos com os aliciadores. Elas contraíram as dívidas com a aplicação de silicone industrial no corpo e com a compra de roupas, calçados e perucas, além de alimentação e moradia. Tudo era pago por cafetões e cafetinas.

Segundo as investigações, as travestis que não quitassem as dívidas eram agredidas com pedaços de paus com pregos, tinham os cabelos raspados e eram largadas nuas nas estradas.

Acompanhadas por agentes e procuradores da Justiça, transexuais do Instituto Nice, ONG que acolhe e dá suporte a trans, usaram o pajubá, dialeto comum para lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, para se comunicar com travestis resgatadas de cativeiros no interior de São Paulo.

Anghel Lima, de 22 anos, mostra um dos desenhos que aprendeu a fazer no Nice, que a acolheu. A jovem travesti era explorada sexualmente antes de ser resgatada pela ONG e pelo MPF. — Foto: Celso Tavares/G1Anghel Lima, de 22 anos, mostra um dos desenhos que aprendeu a fazer no Nice, que a acolheu. A jovem travesti era explorada sexualmente antes de ser resgatada pela ONG e pelo MPF. — Foto: Celso Tavares/G1

Anghel Lima, de 22 anos, mostra um dos desenhos que aprendeu a fazer no Nice, que a acolheu. A jovem travesti era explorada sexualmente antes de ser resgatada pela ONG e pelo MPF. — Foto: Celso Tavares/G1

A travesti Valéria Rodrigues, de 39 anos, e a transexual Larissa Raniel, de 39, ambas coordenadoras do Nice, participaram das operações Fada Madrinha, realizada em Franca no dia 19 de agosto de 2018, e Cinderela, que ocorreu em 9 de março em Ribeirão Preto.

“Foi um anjo que entrou na hora, que foi a Valéria Rodrigues, coordenadora do instituto Nice. Ela também é transexual, mas na hora que entrou a gente não percebeu que era trans porque chegou tão calada, mas já soltou o pajubá das trans, né? E falou: ‘e aí tudo bem?!’ Eu falei: é transexual”, lembra recentemente, entre sorrisos, Anghel Lima, de 22 anos, uma das resgatadas na Operação Fada Madrinha.

Valéria Rodrigues fundou o Nice para acolher trans vítimas de exploração sexual e ajudá-las a buscar emprego formal — Foto: Celso Tavares/G1Valéria Rodrigues fundou o Nice para acolher trans vítimas de exploração sexual e ajudá-las a buscar emprego formal — Foto: Celso Tavares/G1

Valéria Rodrigues fundou o Nice para acolher trans vítimas de exploração sexual e ajudá-las a buscar emprego formal — Foto: Celso Tavares/G1

Fonte: G1