No último dia 27 de janeiro, a ONG Bem Querer Mulher esteve presente em mais uma visita à aldeia Tekoa-Porá (também referida como Tecoaporã), localizada no território da Tenondé Porã, no extremo sul de São Paulo. O objetivo da visita foi dar continuidade na Ação Juruá, que visa o fortalecimento da proteção social das famílias, realizando escuta qualificada das mulheres, distribuindo doações e promovendo a autonomia dessas populações.
Esta não é a primeira vez que a ONG participa da iniciativa. A equipe de assistência social e psicologia da Casa Bem Querer Mulher já atua de forma contínua no projeto, participando de eventos anteriores e consolidando um vínculo de confiança com a comunidade.

A Ação Juruá foi um projeto idealizado há cerca de dois anos pela Dra. Monique Lima, delegada titular da 6ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) em São Paulo, uma das DDMs onde a Bem Querer Mulher está presente. A 6ª DDM possui a maior área de atuação da América Latina, cobrindo 43% da capital paulista, incluindo a região de Parelheiros, onde estão localizados 14 aldeamentos indígenas. A Ação surgiu a partir de um diagnóstico alarmante: o isolamento geográfico, as barreiras linguísticas e as diferenças culturais geravam uma enorme subnotificação de casos de violência.
A Dra. Monique Lima explica o estopim para a criação do projeto: “Eu comecei a fazer levantamento e vi que não tinha quase registro de boletim de ocorrência dessa região. Aí eu pensei: ‘Poxa, se aqui, que a gente tem essa cultura, informação, tem tanta violência doméstica, o que acontece com essa região?'”.
O nome “Juruá” foi adotado porque é assim que os povos indígenas se referem ao homem branco, simbolizando a união e a ajuda do “homem branco” às comunidades originárias. Para contornar a desconfiança, a Ação começou levando assistencialismo básico e atividades lúdicas, construindo pontes para que o Estado pudesse, eventualmente, oferecer segurança e justiça.
Os resultados anteriores da Ação Juruá já demonstram um impacto significativo na vida dessas comunidades. O trabalho contínuo fez com que hoje a delegacia consiga registrar uma média de 10 boletins de ocorrência por ano vindos da região, o que representa um avanço expressivo para populações que antes toleravam a violência caladas.

Além disso, o projeto capacitou enfermeiras de Unidades Básicas de Saúde (UBS) e professores locais para identificarem sinais de abuso e registrarem ocorrências online. Estruturalmente, as visitas constantes ajudaram as aldeias a organizar suas escolas, melhorar o planejamento de suas próprias plantações de subsistência e estabelecer uma linha de comunicação direta e de confiança com a polícia.
Apesar dos avanços, os desafios futuros são complexos. A comunidade ainda enfrenta problemas graves de saneamento básico, necessidade de cuidados veterinários para os animais da aldeia e o risco constante de exploração por meio de um “turismo” desordenado e desrespeitoso. Há também a necessidade contínua de evitar que o projeto se torne um assistencialismo que gera dependência, buscando sempre a autonomia dos indígenas.

É neste cenário de desafios que a atuação da Bem Querer Mulher se torna mais uma vez fundamental. Como ressalta a Dra. Monique, “você não faz isso [dar acesso à cidadania] só com segurança pública, você faz isso com assistência social”.
Para os próximos passos, a ação planeja intensificar o acompanhamento socioassistencial, garantindo que mais famílias acessem seus direitos básicos. Além disso, a equipe técnica da Bem Querer Mulher pretende realizar atividades focadas no acolhimento e fortalecimento da autoestima feminina, para tratar da prevenção à violência de forma cada vez mais próxima e respeitosa à realidade cultural da aldeia.
