RIO – O quanto a questão de gêneroimpacta na decisão das pessoas sobreviajar sozinhas ou acompanhadaa, para onde ir ou que tipo de atividades fazer? Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira, dia 21, dá pistas para responder a essas perguntas.
A pesquisa foi conduzida não só no Brasil, mas também em Argentina, Colômbia e México. Os países são alguns dos mais importantes da América Latina, região com índices expressivos de violência contra a mulher — o termo feminicídio, por exemplo, que trata da morte de uma mulher pelo simples fato de ser mulher, foi cunhado na América Latina.
No levantamento, as entrevistadas foram questionadas sobre o que elas mais desejam ao viajar. Considerando-se os quatro países, as respostas mais citadas foram infraestrutura (68%) — incluindo meios de transportes mais eficientes e ruas mais iluminadas —, mais policiamento (61%), pacotes de turismo que incentivem passeios em grupos de mulheres (58%) e leis mais duras contra assédio (52%).
As brasileiras destacaram que, quando viajam acompanhadas de outras mulheres, sentem-se mais confortáveis para fazer passeios à noite (65%) e se sentem mais seguras de modo geral (55%).
Esses índices foram um pouco maiores do que a médida dos relatados pelas latinas dos quatro países — respectivamente, 63% e 48%.
Críticas a Sergio Moro: Mulheres apontam ‘sequência de erros’ na fala do Ministro da Justiça sobre violência doméstica
A pesquisa foi realizada em março e envolveu 4 mil entrevistados — mil de cada país —, entre homens e mulheres acima dos 18 anos que já tenham realizado pelo menos duas viagens internacionais. O questionário foi conduzido pela Booking.com, com perguntas elaboradas a partir de uma consultoria da ONG Think Olga, que trabalha com a defesa dos direitos das mulheres.
— Viajar sozinha, para uma mulher, envolve muitos riscos, mas riscos que são na verdade parecidos com os de viver em grandes cidades. O problema é uma questão de gênero — afirma Juliana de Faria, fundadora da Think Olga. — A violência contra a mulher é a mais aceita e permitida no mundo inteiro.
Juliana destaca que um grande receio das mulheres — que faz muitas pensarem duas vezes antes de viajarem sozinhas — é a possibilidade de violência sexual. Ela ressalta que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), três em cada cinco mulheres no mundo já sofreram alguma agressão sexual.
A fundadora da Think Olga elaborou, a convite da Booking.com, um guia intitulado “Mulheres no mundo”, com dicas para quem quer viajar só. É uma espécie de cartilha, que reúne informações e sugestões sobre como diminuir os riscos decorrentes da desigualdade de gênero.
— Essa cartilha não vem para amedrontar. Ao contrário, tem o objetivo de informar, comunicar e criar um laço de confiança para as mulheres. Só o fato de a gente olhar para esse tema já é um passo imenso — comenta ela. — Em se tratando de viagens, eu mesma já deixei de fazer algumas coisas por medo, mas nunca me privei de viajar. Já viajei muito sozinha, sempre me coloquei no mundo. As mulheres precisam se colocar, reafirmar a automonia à qual elas têm direito.
vai trabalhar, que vai conquistar o mundo. Se a mulher faz isso, muitas pessoas reagem com “não, você não deveria estar aqui, por isso vamos te penalizar”. Um grupo só de mulheres em uma viagem é visto, às vezes inconscientemente, como um grupo que merece algum tipo de punição — diz.
Para ela, a visão sobre a mulher viajante muda se ela está acompanhada de um homem:
— Quando mulheres estão acompanhadas de homens, é como se elas tivessem o “aval” para estar ali. E é como se ela tivesse a proteção necessária. É uma visão que temos que mudar.
Confira abaixo duas das dicas que estão no guia:
Torne-se conhecida pelas pessoas locais
Ao entrar no local em que ficará hospedada, loja, bar ou restaurante, apresente-se aos trabalhadores locais com simpatia. Ao cumprimentá-los e dizer seu nome, de onde vem e o que está fazendo ali, você está criando laços com essas pessoas. Elas podem vir a lhe dar dicas sobre onde ir, o que comer, a lhe apresentar para outras pessoas, convidar para festas locais e também prestar ajuda. Tendemos a defender mais e melhor aqueles com quem temos alguma relação de afeto.
Mantenha as pessoas informadas sobre onde e com quem você vai
Compartilhe seu itinerário de viagem com pessoas próximas que não estão indo com você. Sempre que fizer um passeio mais longo, informe também a gerência do local em que está instalada sobre aonde vai, com quem vai e quando volta. Assim, se acontecer algo fora do previsto, eles saberão por onde começar a procurá-la.
Fonte: Site O Globo


